ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO NOSSO RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DA NEUROCIÊNCIA NA AMÉRICA LATINA.

Sensação elétrica: Para se comunicar com outros peixes, peixes fracamente elétricos produzem descargas elétricas a partir de um órgão elétrico especializado, localizado na cauda.
Vídeo de Marcelo Casacuberta
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Em busca das origens neuronais da agressão

A neurogenética de peixes fracamente elétricos na natureza investiga as raízes do comportamento de luta.

By Natalia Mesa
28 August 2026 | 1 min watch

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Gymnotus omarorum, um peixe fracamente elétrico, vive em rios de água doce de todo o Uruguai. Esses peixes usam eletricidade para se comunicar e são altamente territoriais, o que os torna modelos ideais para o estudo da neurobiologia do comportamento agressivo, diz Ana Silva, professora de neurociência da Universidad de la República, em Montevidéu. Como os peixes defendem seu território durante todo o ano, a equipe de Silva tem se concentrado em como os circuitos hormonais envolvidos nessa agressividade mudam com as estações do ano—em particular, como os níveis de neuropeptídeos e o comportamento se alteram ao longo do ano.

Há quase 40 anos, Omar Macadar e Omar Trujillo Cenóz registraram pela primeira vez sinais elétricos do Gymnotus omarorum, que recebeu esse nome a partir de uma combinação de palavras do grego e do latim que significa “costas nuas dos Omars”. Depois de estudar no exterior e retornar ao Uruguai, a dupla estabeleceu o peixe como espécie-modelo. O trabalho deles “abriu um novo capítulo” na pesquisa em neuroetologia no Uruguai, afirma Silva. Desde então, os peixes fracamente elétricos têm impulsionado estudos sobre ritmos circadianos e eletropercepção, principalmente no Uruguai, mas também no Brasil e no Chile.

Landscape view of water and sky.
Laboratório vivo: Pesquisadores da Universidad de la República registram, de forma não invasiva, a eletricidade emitida por peixes em uma lagoa que serve de habitat para a espécie Gymnotus omarorum.
Fotografía de Marcelo Casacuberta

No início, Silva e sua equipe trouxeram peixes fracamente elétricos para o laboratório. Mas, nos últimos anos, eles também realizaram estudos de campo para embasar seu trabalho em laboratório, criando um equipamento capaz de registrar a descarga do órgão elétrico dos peixes em tempo real, de forma totalmente não invasiva, nos lagos e rios dos arredores de Montevidéu, onde os peixes habitam. Desenvolvido em colaboração com pesquisadores da Universidade de Tübingen, da Universidade de Berlim e da Columbia University, o sistema utiliza hastes de carbono inseridas na densa vegetação subaquática e conectadas a um digitalizador que registra continuamente a descarga de cada peixe. Como cada sinal do Gymnotus é distinto, o sistema permite que a equipe de Silva reconstrua os movimentos de um determinado animal e acompanhe disputas territoriais, sem nunca tocar no peixe. Rastrear indivíduos na natureza exclusivamente por meio de suas assinaturas elétricas ao longo de vários dias, sem qualquer intervenção, foi um “marco” para a pesquisa, afirma Silva.

Clube da luta: Brigas são comuns em Gymnotus omarorum, oferecendo aos pesquisadores um modelo para estudar as origens neuronais do comportamento agressivo.
Vídeo de Tarkio Films

Posteriormente, a equipe coleta amostras de sangue e biópsias cerebrais de peixes capturados em campo para medir os níveis de hormônios circulantes e quantificar a expressão de receptores de neuropeptídeos em diferentes regiões do cérebro. A transcriptômica de biópsias cerebrais revelou genes cuja expressão covaria com o comportamento—dados que, segundo Silva, seriam muito mais fracos se os animais tivessem passado algum tempo em cativeiro, o que atenua as assinaturas comportamentais e fisiológicas que os pesquisadores buscam.

Silva descreve o processo de construção da plataforma, que levou uma década, como característico da prática científica na região: ela foi montada aos poucos, em etapas por vezes incertas, em vez de ser financiada e construída de uma só vez. Silva também está finalizando, com Adriana Migliaro, investigadora na Universidad de la República, e José Luis Peña, professor de neurociência na Albert Einstein College of Medicine, o que ela afirma ser o primeiro livro didático de neuroetologia em espanhol, com lançamento previsto para 1º de setembro.

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