ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO NOSSO RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DA NEUROCIÊNCIA NA AMÉRICA LATINA.

Um petisco de caranguejo: Por serem tanto presas quanto predadores, os caranguejos Neohelice podem ser usados ​​para estudar os circuitos de congelamento, fuga e perseguição.
Video de Daniel Tomsic
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Revelando como os caranguejos conseguem escapar

Os Neohelice granulata, verdadeiros Houdinis, oferecem uma rara oportunidade de realizar registros intracelulares em animais acordados e em movimento.

By Natalia Mesa
28 August 2026 | 0 min watch

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Na costa da Argentina, nos estuários e pântanos salgados do Atlântico Sudoeste, inúmeros caranguejos escavam tocas na areia. Daniel Tomsic, professor associado de neurociência da Universidad de Buenos Aires, cresceu observando essas criaturas tão comuns, Neohelice granulata, entrando e saindo rapidamente de suas tocas sempre que visitava a praia.

Tomsic agora estuda como os gânglios do caranguejo controlam o comportamento de fuga guiado pela visão nesses mesmos animais. As gaivotas caçam essas criaturas, que são apenas um pouco maiores do que uma palheta de violão. Quando um caranguejo vê uma gaivota voando acima dele, precisa decidir se deve fugir e em que direção. É o mesmo cálculo que um tenista faz ao avaliar um saque a 200 quilômetros por hora e decidir quando rebater, diz Tomsic. “Ninguém sabe como esses cálculos de tempo até a colisão são feitos”, afirma, acrescentando que o caranguejo é um organismo-modelo adequado para estudar essa questão.

Tomsic herdou o modelo de seu mentor, Hector Maldonado, que introduziu o Neohelice como um modelo neuroetológico na Argentina após retornar de 18 anos de exílio. Tomsic avançou no trabalho realizando registros intracelulares em animais vivos em atividade, algo que antes só havia sido feito em insetos e somente depois que braços e pernas do animal eram removidos. A carapaça rígida do caranguejo e a região cerebral acessível, que pode ser alcançada por meio de um pequeno orifício perfurado na cutícula, tornaram isso possível, diz Tomsic.

Ameaça iminente: No laboratório, Daniel Tomsic e seus colegas utilizam estímulos de aproximação iminente para testar a resposta de fuga de caranguejos.
Video de Daniel Tomsic

Os registros intracelulares revelaram os circuitos que conectam o estímulo visual à resposta motora. A decisão de fugir é desencadeada assim que o tamanho aparente de um objeto que se aproxima atinge determinado limiar, segundo o trabalho de Tomsic e seus colegas. O caranguejo ajusta continuamente sua velocidade de corrida à medida que a ameaça se expande, desacelerando imediatamente se o estímulo parar de crescer. Um único neurônio gigante, o MLG2, codifica a velocidade com que a ameaça se expande e controla esse ajuste de velocidade em tempo real, enquanto outro neurônio, o MLG1, controla a resposta de imobilização do caranguejo.

Estudos de campo em colaboração com Jan Hemmi, professor de ciências biológicas da University of Western Australia, revelaram que os caranguejos se comportam de maneira diferente no laboratório e na natureza. No laboratório, os caranguejos fogem consistentemente na direção oposta ao estímulo que se aproxima e esperam até que o objeto que se aproxima pareça bastante grande antes de se moverem. No campo, porém, os caranguejos fogem em resposta a estímulos menores e correm para suas tocas para se esconder, mesmo que a toca esteja na mesma direção de um predador. Sem um lugar para se esconder, os animais de laboratório permanecem imóveis para evitar serem detectados. “Essa foi uma grande lição para mim”, diz Tomsic. Essa diferença mostrou que as conclusões de laboratório sobre o comportamento natural acarretam risco real sem verificações de campo, afirma ele.

Mais recentemente, o foco de Tomsic mudou para a tomada de decisão por trás do comportamento de fuga dos caranguejos e como o a presença de outros caranguejos altera quando e como cada caranguejo decide fugir. E, como os Neohelice predam uns aos outros, esse modelo também permite aos pesquisadores estudar o comportamento predatório.

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