
Identificando o que torna o canto de uma ave único
As oscinas e as suboscinas, duas linhagens de aves evolutivamente próximas, aprendem e não aprendem a cantar, respectivamente, ajudando os cientistas a desvendar os correlatos neuronais da aprendizagem e da variabilidade vocal.
Helen Mendes Lima traduziu este artigo.
Machos e fêmeas do joão-de-barro (Furnarius rufus) cantam em duetos, combinando seus cantos em harmonia. Essas aves canoras são comuns em todo o Cone Sul e vivem em ninhos de barro que lembram um forno a lenha.
Os joões-de-barro são suboscinos, um grupo de aves evolutivamente próximo dos oscinos. Mas, ao contrário dos oscinos, que aprendem a cantar imitando um tutor, o canto dos suboscinos é inato. Comparar os dois grupos permite levantar questões sobre as origens neurais da produção vocal, diz Ana Amador, professora da Universidad de Buenos Aires. “É uma janela de oportunidade: exatamente onde eles são evolutivamente mais próximos, qual é a diferença entre aprender a cantar e não aprender a cantar?”
Durante a pandemia de COVID-19, Amador percebeu algo estranho nas fêmeas de joões-de-barro em seu jardim. Cada uma tinha uma estrutura silábica distinta e individualmente identificável, diz ela. Isso foi inesperado, pois esse tipo de assinatura vocal é normalmente associado a espécies que aprendem a cantar. Além disso, essas aves podem ser uma das únicas espécies suboscinas conhecidas em que as sílabas das fêmeas são estruturalmente mais complexas do que as dos machos, abrindo uma oportunidade para estudar diferenças no canto das aves relacionadas ao sexo, acrescenta ela.
Gravações de campo feitas fora do jardim de Amador revelaram que cada fêmea de joão-de-barro possui, de fato, características vocais únicas. A modelagem biofísica dos comandos motores que chegam às cordas vocais das aves reproduziu essa variabilidade, descobriu Amador. O modelo é capaz de prever as instruções motoras necessárias para produzir o canto de cada fêmea, mas ainda não se sabe se essas instruções individuais se originam no cérebro ou se a variabilidade decorre de diferenças físicas entre os corpos das aves. “Que instruções o corpo recebe para gerar o canto? Que instruções ele recebe do cérebro?”, pergunta Amador.

Amador continua a ampliar o conjunto de dados de cantos do joão-de-barro para investigar o quanto os cantos das fêmeas variam entre as populações. Mas, como essas aves não conseguem sobreviver em cativeiro, o grupo de Amador não pode testar diretamente se essas assinaturas individuais refletem instruções motoras distintas do cérebro.
O bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), outro suboscino comum na América Latina, tolera o cativeiro, no entanto. A implantação de eletrodos nos músculos que controlam o órgão vocal de um bem-te-vi dormindo mostrou que os músculos se ativam espontaneamente no mesmo padrão observado quando a ave está acordada e cantando. A conclusão é que as aves estão sonhando seus cantos, diz Amador. O laboratório também trabalha com canários, que são oscinos. O canto rítmico e repetitivo dos canários os torna ideais para estudar como o cérebro codifica a estrutura do canto no nível de neurônios individuais, utilizando eletrofisiologia.
Amador diz que usa o trabalho de campo para identificar questões e o laboratório para respondê-las. A biodiversidade da região é uma “mina de ouro”, acrescenta ela. A maioria das linhagens suboscinas está concentrada na América Latina, tornando o continente um dos poucos lugares para estudar a fronteira evolutiva entre a aprendizagem vocal e o canto inato.
