ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO NOSSO RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DA NEUROCIÊNCIA NA AMÉRICA LATINA.

University of Puerto Rico building.
Um custo maior: As instituições que atendem minorias tornaram-se centros de excelência na formação e na ampliação da participação de grupos sub-representados na pesquisa em neurociência e em outras áreas STEM.
Sam Schuman / iStock / TexPhoto
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O futuro da pesquisa em neurociência nas instituições voltadas a minorias nos EUA está em risco

Os cortes nos programas financiados pelo governo federal representam uma crise existencial para a rica comunidade de neurociência da Universidade de Porto Rico e para a pesquisa em instituições voltadas a minorias em todo o país.

By Carmen S. Maldonado-Vlaar
28 March 2025 | 7 min read

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Dadas as recentes mudanças nas iniciativas de financiamento à pesquisa dirigidas pelo governo federal dos EUA, não é uma surpresa que muitos de nós, da comunidade científica, sintamos que o trabalho de nossas vidas está sob ataque. A eliminação das políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) em todas as oportunidades de contratação e financiamento, bem como a drástica redução proposta nos custos indiretos ameaçam o desenvolvimento da força de trabalho nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês) em universidades, institutos de pesquisa e hospitais através dos Estados Unidos. Mas, para as instituições que atendem minorias (MSIs, na sigla em inglês)—universidades e instituições de ensino superior que atendem predominantemente comunidades de minorias—, os cortes propostos no financiamento federal representam uma crise existencial.

As MSIs, que incluem instituições voltadas à população hispânica (HSIs, na sigla em inglês), faculdades e universidades indígenas, instituições voltadas às populações asiático-americana e das ilhas do Pacífico e faculdades e universidades historicamente negras (HBCUs), tornaram-se centros importantes de formação e de ampliação da participação de grupos sub-representados na pesquisa em neurociência e em outras áreas STEM. As MSIs aumentaram significativamente sua produção científica com recursos obtidos por meio de programas financiados pelo governo federal. Em particular, no início deste ano, a Howard University fez história ao se tornar a primeira HBCU de destaque a obter a classificação R1 em pesquisa, uma designação concedida a menos de 150 instituições acadêmicas nos EUA com os mais altos níveis de atividade de pesquisa.

Essa conquista notável e os avanços dos programas de pesquisa nas MSIs em todo o país estão agora em sério risco. A maioria das MSIs depende muito do financiamento federal e não dispõe de grandes fundos patrimoniais para cobrir déficits financeiros. Cortes drásticos em seus recursos provenientes dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) e da Fundação Nacional de Ciências (NSF, na sigla em inglês) poderiam efetivamente pôr fim à pesquisa biomédica nessas instituições.

T

omemos como exemplo minha instituição, a Universidad de Puerto Rico-Campus de Río Piedras (UPR-RP). A UPR-RP é a principal instituição de pesquisa em Porto Rico e uma das principais HSIs dos EUA. De acordo com dados da NSF de 2021, a universidade ficou em segundo lugar entre as instituições de graduação dos EUA no número de diplomas concedidos a estudantes hispânicos que posteriormente obtêm doutorado, e em primeiro lugar no número de mulheres hispânicas formadas que posteriormente obtêm doutorado.

Em 2024, a UPR-RP obteve mais de US$ 13 milhões em recursos do NIH e US$ 8,3 milhões da NSF. Nenhuma outra instituição pública ou privada da ilha possui um volume tão significativo de financiamento externo para as áreas STEM. Historicamente, a UPR-RP vem obtendo milhões de dólares em recursos federais altamente competitivos, graças a pesquisadores de diversas disciplinas. Ela atua como um importante centro de formação para futuros neurocientistas em Porto Rico, abrigando dois importantes programas de formação em neurociência: o Programa de Oportunidades de Pesquisa em Neurociência para Aumentar a Diversidade (NeuroID) e o Programa de Pós-Graduação em Neurociência, Resiliência, Afirmação e Diversidade (NeuroGRAD).

Como pesquisadora principal de ambos os programas, testemunhei em primeira mão os efeitos transformadores que eles tiveram nas trajetórias profissionais dos estudantes e na infraestrutura científica e financeira da nossa instituição. Por meio do NeuroID, apoiamos com sucesso a formação de 107 estudantes hispânicos de graduação desde 2010. Estabelecemos um programa abrangente que oferece aos estudantes de graduação a oportunidade de avaliar diferentes aspectos de uma carreira de pesquisa em neurociência e desenvolvemos um sistema de mentoria que apoia os estudantes em seu caminho para se tornarem neurocientistas. O NeuroID também nos ajudou a construir uma comunidade de neurociência na ilha. Até o momento, 75% dos nossos bolsistas seguiram para o doutorado em neurociência; 94% apresentaram os resultados de suas pesquisas em encontros científicos; e todos os que concluíram o doutorado estão empregados com sucesso nas áreas STEM e biomédica.

O NeuroID transformou a vida de estudantes de origens desfavorecidas e tem sido extremamente eficaz na garantia de oportunidades de pesquisa em neurociência nunca antes disponíveis para nossa população. E esse sucesso levou ao desenvolvimento de outras iniciativas de ensino financiadas pelo NIH na UPR-RP, incluindo o programa Aumentando a Diversidade em Genômica para a Próxima Geração (IDGeNe, na sigla em inglês), que oferece apoio financeiro a estudantes que trabalham em pesquisas relacionadas à genômica. Isso mostra que o impacto do NeuroID em nosso corpo discente de graduação vai muito além da neurociência.

Da mesma forma, o NeuroGRAD apoia um grupo de promissores estudantes de pós-graduação em neurociência dentro de nossa instituição, em colaboração com instituições de neurociência R1 nos EUA. Esse programa oferece a cada bolsista uma rede de orientação personalizada com base em seus interesses de pesquisa e apoia visitas anuais ao laboratório de um orientador externo para fortalecer as redes de colaboração e as atividades de pesquisa. Como parte dos marcos do programa, os bolsistas do NeuroGRAD devem submeter com sucesso propostas de bolsas do National Research Service Award do NIH, participar de atividades intensivas de desenvolvimento profissional, visitar o laboratório de seu orientador externo e trabalhar na submissão de sua primeira publicação.

Esses programas proporcionam experiências inestimáveis para centenas de estudantes e contribuem para o progresso científico nas MSIs—mas fazem muito mais do que isso. Projetos de pesquisa financiados pelo NIH, pela NSF e por outras agências federais afetam diretamente as comunidades ao abordar questões de saúde pública, tecnologia e sustentabilidade, particularmente entre populações vulneráveis. Esses benefícios estão agora sob sério risco. A ordem executiva emitida em fevereiro para limitar os custos indiretos a 15% significaria uma redução estimada de 69% nos custos indiretos do NIH em nossa instituição. Esse nível de cortes no financiamento tornaria praticamente insustentável a capacidade de nossa instituição de manter sua infraestrutura de pesquisa, recrutar novos estudantes e apoiar programas de pós-graduação em áreas STEM.

A drástica redução nos custos indiretos não só prejudicará a pesquisa em STEM, mas também enfraquecerá a economia da inovação e tornará os EUA menos competitivos globalmente. A diversidade nas áreas STEM fortalece a competitividade econômica global e garante que a ciência e a inovação beneficiem toda a sociedade. Faço um apelo ao governo federal para que reconsidere esses cortes orçamentários e que priorize o financiamento como um investimento essencial no desenvolvimento científico e no futuro do país. Apelo à comunidade científica, aos formuladores de políticas e ao público para que defendam o acesso equitativo à educação e à pesquisa em áreas STEM em todas as instituições acadêmicas em Porto Rico e em todo o território dos EUA.

Este artigo foi escrito fora do exercício da função da autora como professora de neurociência na Universidad de Puerto Rico-Campus Río Piedras e não reflete necessariamente as opiniões de sua instituição empregadora.

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