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O que significa ‘lar’ para Martín Giurfa

O pesquisador especializado em cognição de insetos já trabalhou em vários continentes, mas a Argentina nunca está longe de seus pensamentos.

By Gina Jiménez
10 August 2026 | 15 min read
Portrait of insect-cognition researcher Martin Giurfa.
O mestre do Sperrmüll: Giurfa adaptou a prática alemã de deixar bens indesejados para que outras pessoas os levem, a fim de ajudar a equipar laboratórios na Argentina.
FOTO DE ANA CUBA / CORTESIA DE FRANK WEBER

Gina Jiménez e Martin Giurfa conduziram suas conversas em espanhol, que Jiménez então traduziu para o inglês.

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Em 1990, quando Martín Giurfa morava em Freiburg, na Alemanha, os moradores locais faziam algo que ele nunca tinha visto antes. Uma vez por mês, eles retiravam objetos indesejados de suas casas e os deixavam na rua para que qualquer pessoa pudesse levá-los. Chamavam essa prática de “Sperrmüll”. Caminhando pelas ruas de manhã com sua esposa e amigos argentinos, Giurfa viu televisores, máquinas de lavar e geladeiras, conta ele, todos deixados na calçada. Certa vez, eles até avistaram uma panela de pressão, que levaram para casa.

Giurfa e sua esposa, Gabriela de Brito Sánchez, que também é bióloga, usaram o Sperrmüll para ajudar a equipar a casa. Giurfa havia vindo da Argentina para a Alemanha para fazer um pós-doutorado no laboratório do renomado neurocientista Randolf Menzel. Ele já tinha ouvido falar sobre o Sperrmüll antes de chegar, mas, ao ver tudo pessoalmente, diz ter percebido que isso acontecia porque a Alemanha era um país rico, onde as pessoas compravam coisas novas que queriam e simplesmente descartavam as antigas.

Giurfa ficou surpreso ao ver uma dinâmica semelhante se repetindo nos laboratórios universitários. Seus colegas alemães, às vezes, jogavam fora equipamentos perfeitamente utilizáveis—embora ultrapassados—que seriam um sonho para muitos pesquisadores argentinos, diz ele. Era difícil simplesmente ver tudo aquilo ir para o lixo.

Por fim, Giurfa se juntou a um grupo de pesquisadores argentinos que havia formado uma espécie de “Sperrmüll” profissional. Eles recolhiam computadores antigos e outros equipamentos pouco usados—incluindo dispositivos complexos que cientistas alemães haviam utilizado para registrar os movimentos das abelhas—e os enviavam para a Argentina para os pesquisadores de lá.

Mais tarde, Giurfa lançaria as bases para uma nova compreensão das habilidades cognitivas dos insetos. Sua descoberta foi “revolucionária” e “colocou todo o estudo da inteligência dos insetos em um novo caminho”, diz Lars Chittka, que era aluno de doutorado no laboratório de Menzel na época em que Giurfa estava lá e agora é professor de psicologia na Queen Mary University of London. Mas, naqueles primeiros anos, Giurfa era apenas mais um jovem pesquisador que havia ido para o exterior em busca de desafios científicos e ainda se pegava pensando nas pessoas de sua terra natal.

A

verdade é que Martin Giurfa não é argentino de nascimento. Sua mãe argentina—teimosa como era, segundo ele—casou-se com um peruano e seguiu com ele para Lima, onde Giurfa nasceu e foi criado. Seu pai os deixou quando Giurfa tinha apenas dois anos, mas sua mãe se recusou a voltar para a Argentina; ela queria se tornar mais independente. Em vez disso, conseguiu um emprego em um banco e matriculou o filho em uma escola francesa particular para torná-lo bilíngue. Ela também o matriculou em tudo o que achava que estimularia sua mente: aulas de pintura, idiomas e música. Ela proporcionou a ele o que “na neurociência chamamos de enriquecimento ambiental”, diz Giurfa.

Martin Giurfa está em uma sala com vários violões.
Enriquecimento ambiental: A mãe argentina de Giurfa o matriculou em uma escola francesa particular para torná-lo bilíngue e o inscreveu em tudo o que achava que estimularia sua mente: aulas de pintura, idiomas e música.

Como associava o Peru ao pai que o abandonou, Giurfa rejeitou seu país natal nos primeiros anos de sua vida e sempre planejou partir. Mas crescer no Peru tinha suas vantagens. Naquela época, era apenas uma curta viagem de carro de Lima até a praia ou as montanhas, o que o colocou em contato com a natureza—e com os insetos. “Os biólogos se tornam biólogos por muitas razões diferentes”, diz ele. “Alguns como eu encontram a biologia porque amam os bichos”. 

Ainda assim, sua mãe sempre o lembrava de que ele era argentino. Ela comprava para ele quadrinhos e revistas esportivas argentinas. Também o mandava para a Argentina visitar seu tio e outros parentes. Pelo que sua mãe dizia, a Argentina era uma espécie de terra prometida, conta ele. “Você precisará ir para lá um dia”, ela dizia, “porque esse é o nosso lugar no mundo”.

Mas quando ele se mudou para a Argentina em 1980 para cursar a graduação em biologia na Universidad de Buenos Aires, o país não era o paraíso que ele esperava. A Argentina já estava sob uma ditadura militar havia quase cinco anos naquela época, e soldados vigiavam a entrada da universidade, revistando as mochilas dos estudantes assim que chegavam. Não havia atividades estudantis nos corredores, e você podia se meter em encrenca simplesmente por tocar violão no campus, diz Giurfa.

A universidade também havia se tornado um campo de batalha ideológico. Professores do departamento de biologia negavam a teoria da evolução; o novo governo reduziu drasticamente o número de vagas na universidade e reformulou radicalmente os currículos dos cursos de ciências humanas. A situação também era fisicamente perigosa. Entre 1976 e 1983—os anos da ditadura militar—mais de 600 estudantes da universidade desapareceram, aproximadamente 60 deles do departamento em que Giurfa também estudava.

Talvez por ter sido criado em outro país e, por isso, ingênuo quanto ao verdadeiro perigo, diz ele, Giurfa tornou-se um líder do movimento estudantil clandestino. Ele e seus amigos universitários organizavam protestos e pixavam as paredes—atividades que poderiam ter levado à sua prisão ou até mesmo à sua morte. “Hoje em dia, penso em como eu era inconsciente”, diz ele.

Centenas de cientistas deixaram a Argentina durante o período da ditadura e nos anos que a antecederam. Mas quando o regime militar caiu, em 1983, alguns começaram a voltar. Um deles, um renomado neurobiologista chamado Héctor Maldonado, queria transformar a faculdade de biologia da Universidad de Buenos Aires e seu currículo, que na época contava com apenas dois ramos—botânica e zoologia. Com a ajuda de outros professores que haviam retornado, Maldonado criou cursos de microbiologia, ecologia, biologia molecular, biologia celular e evolução. Como estudante, Giurfa ficou fascinado com a transformação de sua faculdade; de repente, ele podia aprender sobre todas essas novas áreas, e a sobrecarga de informações era suficiente para “deixar qualquer um de queixo caído”, diz ele.

Giurfa, que havia sido eleito líder estudantil do departamento de biologia, trabalhou diretamente com Maldonado para promover algumas dessas mudanças. Mas ele havia sido ensinado que os cientistas deveriam ficar em suas torres de marfim, preocupados apenas com suas pesquisas e nada mais, diz ele. Ele compreendeu que não era assim ao observar Maldonado. Com ele, escreveria Giurfa mais tarde, aprendeu que “a melhor ciência, a ciência de excelência, não estava em conflito com o envolvimento [político]”.

E

m 1990, Giurfa concluiu seu doutorado em biologia em Buenos Aires, com foco principal no comportamento dos insetos. Durante o curso, Josué Núñez, um neurobiologista argentino que havia retornado da Alemanha e se tornou mentor de Giurfa, incentivou-o a publicar em revistas internacionais, o que não era comum na Argentina na época. No entanto, assim que Giurfa publicou um trabalho no Journal of Insect Physiology, ele chamou a atenção de Menzel—o maior nome da neurociência das abelhas dos últimos 40 anos, segundo Jean-Christophe Sandoz, neurocientista da Université Paris-Saclay e um dos orientandos de Giurfa. Quando Menzel convidou Giurfa para se mudar para a Alemanha a fim de trabalhar com ele, foi como “jogar futebol em um time amador e, de repente, ser convocado para jogar na Champions League pelo Bayern de Munique ou pelo Manchester City”, diz Giurfa.

No início, Giurfa teve dificuldade para se adaptar. A cultura alemã lhe parecia sisuda, séria—o oposto da cultura latino-americana em que ele cresceu. Ele se sentia como o estrangeiro que era, e a Alemanha não era exatamente acolhedora com estrangeiros naquela época, diz ele. Sua caixa de correio—a única em seu condomínio com um sobrenome estrangeiro—foi chutada e amassada mais de uma vez. Ele resolveu o problema, conta, acrescentando “Dr.” antes do seu nome na caixa.

Giurfa também se sentia um estranho no laboratório. Ele nunca tinha, por exemplo, visto os computadores com os quais seus colegas se sentiam tão à vontade para trabalhar. E o laboratório era competitivo; seus colegas pareciam preferir trabalhar sozinhos. Ele descobriu que oferecer ajuda aos outros promovia um ambiente mais colaborativo e, com o tempo, seus colegas se tornaram seus amigos. Menzel reconhece a natureza cooperativa de Giurfa. “Ele não está focado apenas em si mesmo. Ele olha ao redor e usa esse tipo de conhecimento para ajudar outras pessoas”, diz ele.

Ainda assim, Giurfa queria fazer suas próprias perguntas. A maioria dos pós-doutorandos ou doutorandos no laboratório de Menzel recebia um projeto específico que pudesse contribuir para as questões de pesquisa de Menzel, diz Chittka, mas Giurfa queria saber “o que seria possível aprender com pequenos cérebros de abelhas, quais circuitos mínimos ainda poderiam gerar um comportamento inteligente”.

Com a aprovação de Menzel, Giurfa investigou se as abelhas eram capazes de distinguir entre diferentes estímulos visuais com base apenas na simetria. Primeiro, ele treinou as abelhas com figuras simétricas e assimétricas, oferecendo uma recompensa de açúcar apenas quando elas encontravam as figuras simétricas. E quando, mais tarde, ele apresentou às abelhas um novo arranjo com figuras diferentes, elas se aproximaram das figuras simétricas para receber a recompensa de açúcar. Giurfa e sua equipe também realizaram o experimento ao contrário, com a recompensa associada às figuras assimétricas, e as abelhas dominaram isso também. O experimento mostrou não apenas que as abelhas podiam aprender regras, mas também que eram capazes de categorizar objetos que não tinham nada em comum, exceto a simetria—uma percepção anteriormente demonstrada apenas em seres humanos, pássaros, golfinhos e macacos.

Anos depois, Giurfa conduziu um experimento no qual as abelhas viam um estímulo visual—uma cor ou um padrão—fora de um labirinto e recebiam uma gota de açúcar se se aproximassem do mesmo estímulo dentro do labirinto. O estímulo mudava a cada vez, de modo que não bastava que os insetos associassem o estímulo à recompensa; eles precisavam aprender a regra e lembrar-se do padrão, e as abelhas conseguiram. Esse estudo tornou-se um artigo de referência na área.

No apiário: Um membro do laboratório de Giurfa cuida de uma colmeia no telhado de um prédio da Sorbonne Université.

Recentemente, Giurfa publicou um artigo mostrando que, após serem treinadas para associar números a uma recompensa de açúcar, as abelhas conseguem ordenar os números da esquerda para a direita de acordo com sua magnitude. Esse artigo gerou divergências entre os colegas. Esse tipo de resposta não é novidade. Chittka afirma que algumas das descobertas anteriores de Giurfa foram tão chocantes que as pessoas não acreditaram nelas a princípio, e o próprio Giurfa se lembra de ter sido questionado por pesquisadores mais experientes no início de sua carreira. “Eu simplesmente continuei em frente”, diz ele.

E

m 2001, após dez anos produtivos no laboratório de Menzel, Giurfa recebeu uma oferta para criar um novo instituto de pesquisa em Toulouse, na França. Em sua primeira visita ao local, enquanto esperava pelo ônibus, ele viu uma senhora idosa gritando e agitando sua bengala para o motorista do ônibus, que quase partiu sem ela. Isso o fez lembrar mais da América Latina do que a Alemanha jamais fez, diz ele, e lembra-se de ter pensado: “Estou de volta à Argentina”. Ele e sua esposa já tinham duas filhas naquela época e também achavam que a França poderia ser boa para a família.

Em Toulouse, Giurfa aprofundou-se em uma nova área de paradigmas de aprendizagem que mostrava quão ricos são os níveis cognitivos das abelhas, diz Menzel. Ele também demonstrou correlações entre estímulos olfativos e padrões de atividade neural nas abelhas. E, aproveitando seu talento para colaboração, Giurfa criou o novo instituto focado no estudo dos mecanismos de processamento cognitivo em diferentes animais; o trabalho exigia a coordenação de pesquisadores de diversas áreas com especializações variadas, mas isso lhe caía bem, diz Sandoz. “Ele sempre quis tirar o melhor das pessoas.”

Assim que o instituto começou a funcionar a todo vapor, Giurfa mudou-se para a Sorbonne Université, onde foi contratado como professor de neurociência “de classe excepcional”, a mais alta categoria no meio acadêmico francês.

E

m 2013, Giurfa recebeu o Prêmio Raíces, uma distinção concedida pelo Senado argentino a cientistas que vivem no exterior, mas continuam trabalhando para fortalecer a ciência argentina. Raíces significa “raízes” em espanhol e, de fato, Giurfa ainda pensa em sua terra natal.

Giurfa conseguiu criar uma espécie de “Sperrmüll” próprio. Quando visita a Argentina hoje em dia, ele coloca na mala reagentes ou pequenos instrumentos, como eletrodos ou registradores de dados, que pode distribuir aos neurocientistas argentinos. Gabriela de Brito Sánchez faz o mesmo. Walter Farina, neurocientista da Universidad de Buenos Aires e amigo de longa data do casal, tem sido um beneficiário direto disso. Ele e de Brito Sánchez estão estudando as vias neuronais associadas à atenção e à motivação em abelhas. De Brito Sánchez traz reagentes para a Argentina, e “realizamos os experimentos aqui”, diz Farina.

Eles não são os únicos a fazer isso. A localização geográfica da Argentina, as restrições regulatórias e a inflação galopante—mais de 200% no ano passado — tornam o fornecimento de materiais difícil e caro. Quando o argentino José Duhart, neurocientista comportamental do Instituto Leloir, em Buenos Aires, voltou para casa após seu pós-doutorado na Filadélfia, ele conta que escondeu vários tubos com moscas-das-frutas machos e fêmeas—e suas larvas—em sua mala. E Pedro Bekinschtein, neurobiologista do Instituto de Neurociencias Cognitivas y Translacionales (parte da fundação INECO) em Buenos Aires, conta que, quando voltou de uma estadia de pesquisa no Brasil, trouxe cérebros de ratos embalados em gelo seco, para poder continuar seu trabalho em casa.

Mas os problemas que os pesquisadores enfrentavam anteriormente na Argentina não são nada comparados ao que estão vendo agora, diz Bekinschtein. Em abril, milhares de argentinos protestaram contra os cortes orçamentários do governo nas áreas de ciência e educação. O governo não havia ajustado os orçamentos das universidades para acompanhar a inflação. Organizações financiadoras, como a Agência Nacional de Promoção da Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, não transferiam bolsas de pesquisa para cientistas nem alocavam recursos desde dezembro do ano passado, disse Farina. Haydeé Viola, neurobiologista da Universidad de Buenos Aires que trabalha com Giurfa na transferência de modelos de memória de insetos para vertebrados, vem usando seu próprio dinheiro para pagar a ração dos ratos de laboratório.

Giurfa diz que teme que os cortes no financiamento e a atitude do governo em relação à ciência possam provocar um “êxodo em massa” de cientistas, da mesma forma que aconteceu durante a ditadura de Videla, quando ele era estudante. Giurfa e Farina afirmam que isso já está acontecendo. No ano passado, 1.900 jovens pesquisadores se inscreveram para integrar o Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina; este ano, apenas 1.300 o fizeram. “Isso significa que 600 decidiram mudar de carreira ou procurar emprego em outro lugar”, diz Farina. “Temos que repensar se a vida como cientista e pesquisador faz sentido na Argentina.”

Para Giurfa, o conceito de “lar” pode parecer um pouco nebuloso: ele já morou no Peru, na Argentina, na Alemanha e agora na França, onde se tornou cidadão em 2016. Ele adora o país e se sente à vontade lá em sua vida pessoal de uma forma que nunca se sentiu na Alemanha. Mas, na verdade, a Argentina está sempre em seus pensamentos. Todas as manhãs, ele lê seu jornal argentino favorito antes do francês e, embora suas duas filhas tenham sido criadas na Europa, uma se mudou para a Argentina e a outra alterna entre o México e a Argentina.

Até mesmo sua mãe acabou voltando, em 1986, para os braços da família. Ela faleceu há dois anos em Buenos Aires, aos 98 anos. E o próprio Giurfa planeja, um dia, voltar de vez para a Argentina—ou, pelo menos, para a América Latina. “Minhas raízes estão lá, isso é inegável”, diz ele. “Não sou uma pessoa ‘sem raízes’. Tenho uma cultura, afetos, uma maneira de falar e de ser. Isso não desaparece simplesmente.”

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