Helen Mendes Lima traduziu este artigo.
Assistir à Copa do Mundo no Chile foi uma experiência estranha. Estávamos fora da competição, mas conhecemos o jogo, acompanhamos de perto e compreendemos algo que toda Copa do Mundo mostra claramente: talento não é sinônimo de acesso.
Isso também vale para a ciência. Talento e ideias estão por toda parte, mas as revistas científicas, conferências e redes que os tornam visíveis ainda estão concentradas em um pequeno número de países ricos. A visibilidade da pesquisa tem sua própria infraestrutura. Ela depende de taxas de publicação, recursos para viagens e acesso a redes profissionais que não estão distribuídos de maneira uniforme.
A questão na América Latina não é se temos bons laboratórios ou ideias com relevância internacional. Nós temos. A questão é por que é tão caro tornar isso visível.
O Chile oferece um estudo de caso muito útil para enxergar esse problema com clareza. O país é muitas vezes descrito como um dos destaques científicos da América Latina. Ele não está entre os países mais pobres da região e possui universidades sólidas e uma comunidade vibrante de neurociência.
No início deste ano, meus colaboradores e eu realizamos uma pesquisa com pesquisadores e pesquisadores em formação dessa comunidade para entender como a área tem se desenvolvido. Encontramos cientistas atuando nas áreas de neurofisiologia, neurobiologia celular e molecular, neurociência cognitiva e neurociência de sistemas, tanto em abordagens básicas quanto nas mais integrativas. Cerca de dois terços dos entrevistados relataram ter concluído seu doutorado no Chile, o que indica que a expansão da área não é simplesmente resultado de formação no exterior.

Descobrimos que essa atividade de pesquisa também resultou em um conjunto extenso e visível de trabalhos, com presença na literatura internacional. De acordo com a OpenAlex, uma base de dados de acesso aberto que rastreia publicações científicas, 14.870 publicações relacionadas à neurociência com afiliações no Chile foram publicadas entre 1941 e 2026. Aproximadamente 11 mil desses trabalhos foram publicados após 2000.
Essa conquista merece reconhecimento, mas não deve ser usada como evidência de que o atual sistema de identificação de talentos globais está funcionando. De acordo com medidas bibliométricas, a neurociência chilena pode parecer uma história de sucesso: o número de publicações, as colaborações internacionais, as publicações em acesso aberto e a visibilidade aumentaram. No entanto, o orçamento de pesquisa no Chile conta uma história diferente. Essas conquistas foram alcançadas por uma comunidade que trabalha sob condições de financiamento muito diferentes daquelas da comunidade científica internacional da qual se espera que os pesquisadores chilenos participem. O sucesso nas publicações pode, portanto, ocultar tanto a precariedade por trás das conquistas reais quanto o talento que nunca recebe apoio suficiente para participar. Os apelos pela diversidade e pela ciência aberta não serão suficientes para promover uma maior participação latino-americana se as condições de participação continuarem tão desiguais.

U
Para um neurocientista em início de carreira, um orçamento de pesquisa anual típico é de aproximadamente US$ 30 mil. Muitas revistas de acesso aberto de alto impacto cobram taxas de processamento de artigos (APCs) superiores a US$ 5 mil, e algumas cobram bem acima de US$ 7 mil. Um artigo aceito pode consumir o equivalente a meses de orçamento, sem contar as despesas com reagentes, pagamentos aos participantes, estudantes, reparos de equipamentos ou custos inesperados. Para um laboratório bem financiado em um país de alta renda, uma taxa de publicação pode ser apenas uma despesa administrativa. Para um laboratório chileno, é uma decisão existencial: publicar onde o trabalho possa receber atenção ou preservar o orçamento necessário para manter o trabalho em andamento.
A crise da revisão por pares acrescenta mais um desafio. Muitos pesquisadores ocupados estão menos dispostos a revisar artigos para revistas de menor impacto, preferindo reservar seu tempo para revisar artigos de revistas de alto prestígio, o que cria uma armadilha silenciosa criada pelo prestígio. Revistas mais acessíveis muitas vezes têm dificuldade para garantir revisões rigorosas e rápidas. Para pesquisadores com orçamentos limitados, optar pela alternativa mais barata significa abrir mão de prestígio, enfrentar revisões mais lentas e ter menor visibilidade.

As conferências trazem o mesmo problema. A taxa de inscrição é apenas uma parte do custo. Para quem viaja de Santiago, o custo total da viagem pode incluir um voo de longa distância, várias noites de hotel, refeições e transporte local, além das taxas da conferência—somando uma parcela significativa do orçamento anual de pesquisa. Participar de encontros nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia ou na Austrália pode facilmente chegar a vários milhares de dólares. Participar de encontros regionais na América do Sul, como o Congresso da Federação das Sociedades de Neurociências da América Latina e do Caribe (FALAN), costuma ser mais barato porque as taxas de inscrição são mais baixas e a viagem é mais curta. A participação em conferências não deveria ser um luxo adicional à ciência. É assim que pesquisadores em formação conhecem futuros mentores, como as colaborações começam e como o trabalho ganha visibilidade.

Por essas razões, o discurso habitual sobre o aumento da diversidade me parece incompleto. Muitas revistas, sociedades e instituições do Norte Global afirmam que querem mais autores internacionais, mais colaboradores latino-americanos e mais vozes de fora dos centros habituais. Acredito que muitas delas sejam sinceras. Mas a participação não se resume apenas a ser convidado para um programa. Depende também da capacidade dos pesquisadores de arcar com os custos de sua presença. Convites, painéis e edições especiais não alteram essa equação, e as políticas de isenção ajudam apenas parcialmente. O Chile, por exemplo, quase nunca se qualifica para isenções automáticas, embora seus orçamentos científicos ainda não se assemelhem aos de sistemas de pesquisa mais ricos. Muitas políticas de isenção se baseiam em categorias de renda nacional, e não no valor das bolsas, nas condições locais de financiamento ou no poder de compra.
S
Consigo diagnosticar o problema com mais confiança do que propor uma solução. Mas uma coisa parece clara: a boa vontade não mudará esse quadro sem que também se mude quem paga para ser visto. Uma resposta séria teria que tratar a visibilidade científica como um objetivo compartilhado, não como uma mercadoria. As editoras que lucram com pesquisas financiadas com recursos públicos deveriam subsidiar a publicação de pesquisadores de sistemas com financiamento insuficiente e de países de baixa e média renda, bem como de países com altos níveis de desigualdade de renda. As sociedades científicas deveriam usar a receita das conferências para financiar custos de pesquisadores de regiões onde a participação é estruturalmente cara. As agências de financiamento deveriam parar de recompensar veículos de publicação cujos custos não possam ser cobertos por suas próprias bolsas. Colaboradores com mais recursos econômicos deveriam reservar recursos no orçamento para a visibilidade de seus parceiros, e não apenas para os dados que ajudam a produzir.
Atualmente, grande parte da ciência global funciona como um estádio com portas abertas, mas ingressos caros. Em princípio, todos são convidados, mas apenas alguns conseguem pagar regularmente para entrar. A neurociência chilena ilustra claramente essa tensão. Seus pesquisadores estão publicando trabalhos que merecem fazer parte do debate internacional, demonstrando que ciência importante pode ser conduzida fora dos centros tradicionais de poder. No entanto, fazer essas contribuições muitas vezes exige que eles e suas instituições contornem a falta de financiamento, os altos custos de publicação e o acesso reduzido a recursos que sistemas de pesquisa mais ricos têm como garantidos. Sua visibilidade não deve ser confundida com evidência de que as condições necessárias para a participação são iguais.
A neurociência chilena e latino-americana não precisa de aplausos da torcida. Ela precisa de um campo em que a qualidade possa entrar em jogo sem primeiro ter que provar que pode pagar pelo ingresso. Se a ciência global leva a sério a qualidade, ela também precisa levar a sério o preço do prestígio.
