ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO NOSSO RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DA NEUROCIÊNCIA NA AMÉRICA LATINA.

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Estrela em ascensão: Lucia Peixoto, desvendando a interação entre sono e autismo

A jovem pesquisadora do Uruguai usa seus conhecimentos em genética—e a disciplina adquirida como ex-atleta—para desvendar o papel do sono nas condições do desenvolvimento neurológico, um experimento por vez.

Scientist Lucia Peixoto portrait.
Fotografia de Rajah Bose

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Lucia Peixoto lembra-se claramente de como se sentiu ao dar sua primeira palestra acadêmica.

Era setembro de 2006, e ela havia viajado para Woods Hole, em Massachusetts, como estudante de pós-graduação, para apresentar seu trabalho sobre a genética do parasita Toxoplasma gondii. Seus colegas de laboratório da University of Pennsylvania participavam desse encontro de parasitologistas todos os anos, e ela estava orgulhosa por poder compartilhar seu trabalho ali também.

Peixoto sempre se sentiu à vontade diante de um público e entendia inglês, mas, por ter crescido no Uruguai, falava essencialmente espanhol. Para se preparar, ela organizou uma série de sessões de ensaio, fazendo uso da determinação e do foco que havia aprimorado como jogadora competitiva de vôlei no ensino médio. Ela ensaiou seus slides com seu orientador, o biólogo David Roos, analisando minuciosamente os detalhes e discutindo exatamente o que deveria comunicar.

Quando Peixoto subiu ao palco do encontro, sentiu uma emoção conhecida—entusiasmo, adrenalina—a mesma sensação que experimentava no início de uma grande partida de vôlei. “Você treina, treina, treina e vai disputar aquela partida importante na final”, diz ela.

Foi um ponto fácil: ela ganhou o prêmio de “Melhor Apresentação Estudantil” e, com isso, a oportunidade de apresentar seu trabalho em uma conferência maior no final daquele ano.

O instinto de Peixoto de analisar um desafio e treinar as habilidades envolvidas continuou a ser muito útil para ela como pesquisadora da área de autismo. Hoje, aos 43 anos, professora assistente de medicina translacional e fisiologia na Washington State University, em Spokane, ela está ocupada preparando o terreno para uma melhor compreensão da interação entre o sono e o desenvolvimento cerebral. Sua pesquisa em um modelo de autismo em camundongos, por exemplo, forneceu algumas das primeiras evidências de que as perturbações do sono associadas ao autismo têm uma base genética.

“Ela reflete profundamente sobre o que realmente se pode aprender com modelos animais quando se busca estudar o autismo”, diz o colega pesquisador do sono Matthew Kayser, professor associado de psiquiatria e neurociência na University of Pennsylvania, na Filadélfia.

Com toda a sua determinação, Peixoto também sabe trabalhar em equipe, é uma mentora disponível e defensora de uma maior diversidade e inclusão na ciência, dizem seus colegas. Ela não hesita em discutir as dificuldades que enfrentou como mulher na ciência “e por que quer apoiar a próxima geração”, diz Elizabeth Medina, aluna de pós-graduação do terceiro ano no laboratório de Peixoto.

O que impulsiona Peixoto é a certeza de que, seja na quadra ou no laboratório, o sucesso raramente surge apenas da sorte, diz ela. “Sempre há trabalho envolvido.”

Scientist Lucia Peixoto in her lab with a colleague.
 

P

eixoto nasceu em Montevidéu, no Uruguai. Seu pai trabalhava como economista e sua mãe era arquiteta de formação, mas não exerceu muito a profissão após o nascimento da irmã mais nova de Peixoto, que tem síndrome de Down. “Cuidar da minha irmã tomava muito do tempo dela”, diz ela.

Peixoto teve um bom desempenho no ensino médio e adorava a ideia de ajudar as pessoas, então decidiu se preparar para seguir uma carreira na ciência ou na medicina. Ela ingressou em um curso de graduação na Universidad de la República, em sua cidade natal, em 1997, e logo passou a integrar um laboratório de bioquímica, o que lhe deu um primeiro contato com o trabalho de laboratório.

Em uma conferência científica no Uruguai, em 2001, ela conheceu seu futuro marido, Marcos Frank, na época um pesquisador de pós-doutorado que estudava o papel do sono no desenvolvimento visual. “Temos a história de encontro mais nerd que existe”, diz ela. Ela fez uma pergunta a ele sobre sua palestra, e os dois mantiveram contato, mudando-se juntos para a University of Pennsylvania dois anos depois.

Lá, ela cursou o doutorado em biologia, com foco em genômica e biologia computacional, inspirada pelos avanços no sequenciamento do genoma que havia conhecido na faculdade. “Pensei: ‘Essa coisa de genoma vai dar em alguma coisa’”, conta ela.

Dentro da genômica, ela havia inicialmente decidido se concentrar em doenças infecciosas—algo que afeta particularmente a América do Sul. Mas, após concluir seu doutorado em 2009, decidiu, em vez disso, estudar condições como a que afeta sua irmã e se inscreveu em um programa de pós-doutorado em neurodesenvolvimento no Hospital Infantil da Filadélfia (CHOP, na sigla em inglês).

“Tivemos que dar uma má notícia a ela”, diz Mike Robinson, professor de pediatria do CHOP, que liderou o programa. O trabalho de doutorado de Peixoto estava sob revisão em uma revista científica, mas ainda não havia sido publicado, o que a tornava inelegível para o programa. Esperava-se, porém, que o artigo causasse grande impacto, e por isso Robinson se reuniu com ela e a incentivou a se inscrever novamente assim que o trabalho fosse oficialmente publicado—o que ela fez. Robinson a aceitou no programa ainda naquele ano.

“Ela é apaixonada pela ciência que pratica e pelas metas que possui”, diz Robinson. “Isso é contagiante.”

Com o financiamento do programa, Peixoto assumiu um cargo de pós-doutorado no laboratório de Ted Abel, então sediado na University of Pennsylvania. O laboratório estudava como os mecanismos neurais da aprendizagem e da memória falham em animais que servem de modelo para o autismo e outras condições do desenvolvimento neurológico. Abel convidou Peixoto para avaliar como a aprendizagem e a privação do sono afetam os padrões de expressão gênica dos animais, utilizando tecnologia de sequenciamento de nova geração.

Peixoto conta que, inicialmente, se sentiu deslocada no laboratório de Abel. “Eu nunca tinha tocado em um camundongo na vida! Eu era a pessoa mais inexperiente. Levei muitas mordidas.”

Mas, mais uma vez, ela treinou. Após cerca de seis meses de prática—com orientação de membros mais experientes do laboratório—, ela aprimorou suas técnicas de manuseio. E quando chegou a hora de interpretar seus dados, sua experiência no estudo da expressão gênica em parasitas provou ser útil, diz Robinson. As habilidades que ela havia refinado trabalhando em um sistema simples eram diretamente aplicáveis ao modelo animal mais complexo.

Lucio Peixoto, PhD at her office at Washington State University in Spokane, Washington.
 

A

inda assim, Peixoto não conseguia deixar de pensar que, antes de abordar o desenvolvimento atípico, precisava dominar os “fundamentos” do desenvolvimento típico. “Vindo da área de genômica, sentia que não sabíamos o suficiente sobre a linha de base”, diz ela. “Então, passei a maior parte do meu pós-doutorado pensando em como a aprendizagem e a memória regulam a expressão gênica” em camundongos do tipo selvagem.

Peixoto e seus colegas descobriram que diferentes histonas—as proteínas que ajudam a empacotar o DNA no núcleo na forma de cromatina—são expressas de maneira diferente depois que camundongos do tipo selvagem formam novas memórias de longo prazo. Sua equipe também identificou como a expressão gênica flutua nos camundongos depois que eles aprendem a associar um som a um choque elétrico. O trabalho elucidou as vias moleculares que entram em ação para armazenar diferentes tipos de memórias, ajudando o camundongo a aprender.

Depois de apresentar parte de sua pesquisa de pós-doutorado em uma conferência, Peixoto conheceu Geraldine Bliss, presidente da organização sem fins lucrativos CureSHANK, cujo filho tem a síndrome de Phelan-McDermid, uma condição relacionada ao autismo causada por mutações no gene SHANK3. Peixoto ficou surpresa ao descobrir que Bliss e outros pais da organização estavam mais preocupados com o efeito da condição no sono de seus filhos do que na aprendizagem e na memória.

Essa conversa e várias outras semelhantes acabaram por convencer Peixoto a mudar novamente o foco de sua pesquisa. “Eu compreendia a jornada de ter um filho que é diferente e os desafios que isso traz”, diz ela, referindo-se à experiência de sua mãe ao criar sua irmã. “Por isso, sempre quis trabalhar em algo que realmente importasse para os pais.”

Em 2015, Peixoto montou seu próprio laboratório na Washington State University para investigar como a genética influencia o sono em condições de desenvolvimento neurológico. Seu marido, que agora colabora com ela, havia montado seu próprio laboratório próximo ao dela na universidade no ano anterior.

Peixoto começou a estudar camundongos com uma mutação no gene SHANK3. Os animais têm dificuldade para adormecer, assim como as crianças com síndrome de Phelan-McDermid, e a mutação parece ser a causa, relataram ela e sua equipe em 2019. As descobertas se basearam em caracterizações detalhadas dos padrões de sono e ritmos circadianos em camundongos e pessoas para garantir que a equipe estivesse medindo a mesma coisa entre as espécies, diz Kayser.

Durante a pandemia, Kayser e Peixoto começaram a realizar reuniões conjuntas de laboratório, conta ele. Durante uma sessão virtual, ela e seus colegas discutiram como haviam registrado sinais de eletroencefalografia de camundongos do tipo selvagem e com mutação no SHANK3 em diferentes idades, revelando como o sono dos animais muda ao longo do desenvolvimento e como a mutação afeta esse desenvolvimento.

“Esses são experimentos meticulosos em camundongos”, diz Kayser—em parte porque alguns deles precisam ser realizados ao raiar do dia, quando os camundongos naturalmente adormecem. A quantidade de sono que um animal tem após aprender algo novo ou a hora do dia em que é testado pode influenciar os resultados de um experimento, como descobriram o grupo de Peixoto e outros pesquisadores.

Lucio Peixoto, PhD in her lab at Washington State University in Spokane, Washington.
 

C

om todo o seu trabalho meticuloso com camundongos, Peixoto tem uma profunda preocupação em saber como suas descobertas se aplicam às pessoas, dizem seus colegas.

Outros pesquisadores costumam manipular um gene associado à doença humana e chamá-lo de modelo, diz Kayser. “Mas [Peixoto] se empenha com muito rigor para garantir que esse seja realmente um modelo válido e útil para compreender os mecanismos.”

Depois que Peixoto leu um estudo sobre o sono no autismo, ela entrou em contato com a pesquisadora principal, Annette Estes, professora de ciências da fala e da audição na University of Washington, em Seattle, e as duas começaram a colaborar em uma proposta de financiamento. “Acho que é justo dizer que ela não quer que seu trabalho se limite apenas aos camundongos”, diz Estes. “Ela quer que ele se conecte a questões e resultados clinicamente significativos.”

Como parte de seu esforço para aproximar seu trabalho das pessoas, Peixoto também dedica tempo a refletir sobre como aumentar a diversidade racial e étnica no meio acadêmico. Desde 2019, ela atua como copresidente do Comitê de Equidade, Diversidade e Inclusão da Sociedade Internacional de Biologia Computacional desde 2019 e costuma publicar no Twitter sobre como os preconceitos existentes prejudicam o futuro da pesquisa.

Medina, sua primeira aluna de pós-graduação, cujos pais imigraram do México para os EUA, diz que aprecia o fato de Peixoto compreender o que significa ser uma mulher na ciência e pertencer a um grupo sub-representado. “Sinto-me à vontade por tê-la do meu lado”, diz Medina.

Como mentora, Peixoto também fala sobre a importância do “equilíbrio entre vida profissional e pessoal”, embora deteste essa expressão: “Meu trabalho não é o oposto da minha vida!”, afirma. Em vez disso, ela se refere a esse desafio como um “malabarismo de prioridades”.

Como em todo desafio, ela parte do essencial. Morar em Spokane, um lugar “próximo à natureza”, proporciona um ritmo de vida mais tranquilo e a ajuda a lidar com esse malabarismo, diz ela. E agora que lesões no joelho a afastaram do vôlei, ela tenta encaixar 30 minutos de exercícios todos os dias—de caminhadas a ioga—, às vezes junto com seu filho e sua filha.

Ela diz que a ioga, em particular, lhe dá a oportunidade de deixar o perfeccionismo de lado. “Não vai ser a prática perfeita de ioga” quando uma criança de 6 anos está envolvida, diz ela. “Mas é melhor do que não praticar ioga.”

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