Helen Mendes Lima traduziu este artigo.
Como acontece com muitos cientistas, minha carreira me levou a vários lugares do mundo. Concluí meu doutorado na Itália, mudei-me para a França para duas bolsas de pós-doutorado e, posteriormente, passei um período no Brasil como professor visitante. Finalmente, estabeleci-me no Uruguai, na Universidad de la República em 2008.
A experiência de trabalhar com neurociência em todos esses países me despertou o interesse pela promoção da cooperação científica internacional. Paralelamente à minha carreira acadêmica, ajudei a construir redes de pesquisa colaborativa em organizações como a AMSUD Pasteur Network, a Sociedad de Neurociencias del Uruguay e a Federação das Sociedades de Neurociências da América Latina e do Caribe (FALAN), onde atualmente atuo como presidente. A federação reúne sociedades de neurociências da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, México, Peru e Uruguai para ajudar a promover o avanço da neurociência na região.
Na próxima semana, daremos início ao quarto Congresso da FALAN em Santiago, no Chile. Esse importante evento é possível graças aos esforços dedicados de todas as sociedades membros da FALAN e, especialmente, da sociedade anfitriã, a Sociedad Chilena de Neurociencia, sob a liderança de sua diretora, María Pertusa. Esperamos mais de 1.000 participantes, com uma grande parte deles tendo recebido apoio financeiro para viabilizar sua participação.
O encontro terá um papel fundamental na concretização de nosso principal objetivo: fortalecer a colaboração regional. Guiada pelo lema “A união faz a força”, a federação busca enfrentar nossos desafios comuns em toda a América Latina—incluindo financiamento insuficiente para pesquisa, infraestrutura inadequada e oportunidades insuficientes para capacitação—por meio do fomento à colaboração científica, à educação, à capacitação, ao engajamento público e ao desenvolvimento da neurociência, particularmente em países emergentes. Por exemplo, este ano lançamos um curso intensivo de pós-graduação no Chile que combina instrução teórica com treinamento prático em laboratório, aberto a estudantes de toda a região.
Na FALAN, muitos pesquisadores descobrem que há colegas trabalhando em questões de pesquisa muito semelhantes em países vizinhos, e não apenas na Europa ou na América do Norte. Essas relações permitem que os neurocientistas compartilhem conhecimentos, equipamentos, oportunidades de capacitação e recursos de financiamento; elas criam uma voz coletiva mais forte em defesa do investimento em ciência e ajudam a desenvolver redes de pesquisa que refletem as populações únicas da região e suas prioridades de saúde. Para promover esse tipo de colaboração, organizamos dois eventos especiais durante o Congresso da FALAN—um focado em “Networking Internacional” e outro com o tema “Conectando Mentes, Conectando Regiões: Redes de Neurociência na América Latina.”
O programa científico deste ano inclui palestras de Mu-ming Poo, professor emérito da University of California, Berkeley, e Shubha Tole, presidente da International Brain Research Organization (IBRO), bem como uma expressiva participação de neurocientistas de toda a América Latina e do Caribe, incluindo Francisco Aboitiz da Pontificia Universidad Católica de Chile, Grace Schenatto Pereira da Universidade Federal de Minas Gerais e vários pesquisadores de destaque em início de carreira. Também realizaremos eventos dedicados à diversidade, equidade e inclusão. Organizamos painéis de discussão sobre a liderança feminina na neurociência na América Latina e sobre direitos e ética na neurociência, além de um evento especial sobre sucesso na carreira e desenvolvimento profissional realizado pela ALBA Network.
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Durante meu primeiro mandato no comitê executivo, de 2022 a 2024, nos concentramos em ampliar nossa presença nas redes sociais, fortalecer as relações entre as sociedades membros, estreitar o contato com potenciais novos membros e formalizar redes de colaboração na região. Durante o mandato seguinte, nossos esforços se concentraram principalmente na organização do Congresso da federação, que ocorre a cada quatro anos. Até o momento, realizamos congressos em Cancún, no México; Buenos Aires, na Argentina; e Belém, no Brasil (além de uma reunião virtual durante a pandemia de COVID-19), cada um atraindo de 800 a 1.200 participantes.
Além de conectar pesquisadores de toda a região, a FALAN também tem um forte foco na ampliação de programas locais de capacitação. A América Latina tem uma longa tradição de formar jovens neurocientistas muito talentosos, como demonstram as muitas carreiras de sucesso de pesquisadores formados na região. Infelizmente, várias iniciativas educacionais excelentes—incluindo a renomada Escuela Latinoamericana de Neurociencias e o Programa de Capacitação em Neurociência Miledi para a América Latina—têm enfrentado dificuldades para garantir sua continuidade a longo prazo devido a restrições financeiras e organizacionais, muitas vezes dependendo dos esforços de um pequeno número de cientistas.
Reconhecendo essa necessidade, decidimos assumir a responsabilidade de construir um programa regional de capacitação sustentável. No final de 2024, organizamos a reunião de lançamento do Plano Estratégico da Escola de Neurociências da FALAN, reunindo sociedades científicas, instituições de pesquisa, agências de financiamento e outras partes interessadas em contribuir para essa visão. Este ano, em estreita colaboração com o Comitê Regional Latino-Americano da IBRO (IBRO-LARC), lançamos uma iniciativa ambiciosa, o Programa de Treinamento Latino-Americano em Neurociência, um curso de pós-graduação inédito que oferece aos participantes uma exposição abrangente às metodologias modernas de neurociência, incluindo eletrofisiologia, neurociência computacional, microscopia intravital e neurotranscriptômica. Conseguimos apoiar a participação de 27 estudantes de toda a região!
Essa iniciativa foi viabilizada graças ao apoio essencial da IBRO e da International Society for Neurochemistry (ISN), juntamente com o notável empenho da comunidade chilena de neurociência—liderada por Patricio Rojas, professor da Universidad de Santiago de Chile—cujos membros generosamente abriram seus laboratórios e dedicaram seu tempo e conhecimento ao programa. Nosso objetivo é estabelecer um programa duradouro como parte da FALAN que continue oferecendo capacitação de alta qualidade em neurociência para jovens cientistas em toda a América Latina e no Caribe.
Estamos comprometidos em desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento regional, conectando pesquisadores, compartilhando oportunidades e criando novas iniciativas colaborativas. Estabelecemos relações com organizações como a Latin American Brain Initiative (LatBrain), uma iniciativa coletiva para fortalecer a pesquisa sobre o cérebro em toda a região. Também participamos de atividades do projeto Brain Research International Data Governance & Exchange (BRIDGE), que busca desenvolver estruturas responsáveis e sustentáveis para o compartilhamento internacional de dados sobre o cérebro e, por fim, estabelecer um consórcio global para a governança de dados sobre o cérebro e a saúde mental. Juntamente com a crescente rede de colaborações científicas regionais, estamos criando novos caminhos rumo à excelência acadêmica, ao mesmo tempo em que fazemos um uso mais eficiente dos recursos disponíveis.
Na FALAN, acreditamos profundamente no potencial da neurociência latino-americana e no que podemos alcançar quando nos unimos como região. Vislumbramos um futuro em que pesquisadores, clínicos, pesquisadores em formação e sociedades científicas estejam mais conectados entre si, compartilhando conhecimento, experiência e oportunidades além das fronteiras. Ao fortalecer as redes regionais e investir na próxima geração, podemos enfrentar desafios comuns, reduzir disparidades e garantir que a neurociência latino-americana continue a dar contribuições significativas à comunidade científica global.
