
Este artigo mudou minha vida: um avanço técnico para os estudos da memória
Em um artigo publicado na revista Science em 2007, Mark Mayford e seus colegas descobriram que alguns neurônios ativados durante a aprendizagem também são reativados durante a recuperação da memória. Noelia Weisstaub conta como esse e outros estudos impulsionaram uma era de grande progresso no desenvolvimento de ferramentas.
As respostas foram editadas para maior concisão e clareza.
Qual artigo mudou a sua vida?
Localization of a stable neural correlate of associative memory. Reijmers L.G., Perkins B.L., Matsuo N. and Mayford M. Science (2007)
Este artigo abordou uma questão fundamental que o campo vinha tentando resolver desde o final do século 20: os neurônios que estão ativos durante a aprendizagem são os mesmos que são ativados durante a recuperação da memória? O grupo de Mark Mayford descobriu que um subconjunto de neurônios da amígdala basolateral e lateral, que ficavam ativos quando os camundongos passavam por condicionamento de medo, também ficava ativo quando os animais relembravam essa memória de medo.
Embora essa descoberta tenha sido importante, acredito que o impacto mais significativo do artigo tenha sido no desenvolvimento de ferramentas. Os autores desenvolveram o camundongo TetTag, uma linhagem de camundongos transgênicos que possibilitou a marcação de neurônios ativos durante um intervalo de tempo específico. Os neurônios são marcados quando os camundongos recebem doxiciclina. Os pesquisadores realizaram os experimentos de aprendizagem do medo durante esse período de administração, rotulando os neurônios ativos, e, em seguida, realizaram experimentos de recuperação da memória após interromperem a administração de doxiciclina aos camundongos. Assim, puderam avaliar se os mesmos neurônios voltavam a ficar ativos durante a recuperação.
Pode parecer uma ferramenta comum hoje em dia, mas antes de termos esses modelos, o campo só podia estudar essa questão de maneiras muito indiretas, como bloqueando farmacologicamente populações inteiras de neurônios durante a recuperação da memória. Esse artigo foi a primeira evidência, para mim, de que tínhamos as ferramentas para rastrear os neurônios envolvidos na consolidação e na recuperação da memória com resolução celular.
Quando você teve contato com esse artigo pela primeira vez? No que você estava trabalhando na época?
Quando esse artigo foi publicado, eu estava concluindo meu doutorado nos laboratórios de René Hen e Jay Gingrich na Columbia University. Eu estava estudando o papel dos receptores de serotonina 2A na regulação do humor e os mecanismos de ação das drogas psicodélicas no córtex pré-frontal. Eu não estava trabalhando com memória naquela época, mas acompanhava a área—não apenas porque é sempre um tema interessante, mas também porque estava pensando no papel da modulação da serotonina na memória como uma possível área de interesse a ser explorada após meu doutorado.
Por que este artigo é importante para você?
Este artigo serviu como uma ponte entre o meu estudo do papel da modulação da serotonina no contexto das emoções para o estudo desse mesmo papel na memória.
Sempre achei que, se o córtex pré-frontal tinha tanta inervação serotonérgica, sua modulação deveria estar desempenhando um papel nas funções cognitivas, como a memória. Depois de concluir um pós-doutorado no laboratório de Gingrich, voltei para a Argentina e passei a integrar o laboratório de Jorge Medina na Universidad de Buenos Aires para dar continuidade a essa linha de pesquisa. Na época, o laboratório de Medina estava trabalhando com consolidação e desambiguação da memória. A transição para esse tipo de pesquisa ocorreu de forma bastante natural para mim e foi desencadeada—em parte—pela leitura deste artigo.
Como essa pesquisa mudou a sua forma de pensar sobre a neurociência?
Acho que esse e outros excelentes artigos sobre o desenvolvimento de ferramentas da época deram início a uma era de avanços significativos na neurociência. Muitos laboratórios estavam trabalhando no desenvolvimento de ferramentas para manipular e visualizar regiões do cérebro de maneiras que antes não eram possíveis.
Por exemplo, Karl Deisseroth e seu grupo desenvolveram a optogenética mais ou menos na mesma época, que funciona de maneira semelhante, utilizando promotores genéticos seletivos para estimular e manipular a atividade neuronal. As ferramentas genéticas que estavam sendo desenvolvidas em diferentes laboratórios mostram que essa forma de pensar estava no ar. Todo o campo sabia que, para dar os próximos grandes saltos na neurociência, precisávamos dessas ferramentas, e todos estavam trabalhando nesse sentido.
As ferramentas desenvolvidas nessa era da neurociência nos permitiram abordar questões grandes e desafiadoras: Onde as memórias são armazenadas? Quantos neurônios são necessários? Qual é o tamanho dessa rede de memória? Quantos neurônios são necessários para realmente ativar uma memória?
Existe algum aspecto pouco valorizado deste artigo que outros neurocientistas deveriam conhecer?
O artigo causou um enorme impacto na comunidade quando foi publicado. Acho que a beleza desse trabalho foi que eles reuniram muitas outras ferramentas genéticas e conhecimentos que já existiam para criar algo novo.
Com essas descobertas, o campo passou a falar com mais certeza sobre essa ideia de que as memórias recrutam neurônios que estão ativos durante a aprendizagem—mesmo que não seja necessário ativar todos os mesmos neurônios. Essa é uma daquelas descobertas que validaram uma ideia para a qual muitos outros laboratórios já haviam encontrado evidências indiretas, mas que ninguém na época tinha conseguido responder de forma conclusiva. É um artigo que se tornou uma espécie de padrão-ouro, porque apresentou uma descoberta ousada e forneceu ferramentas para que pesquisadores explorassem questões semelhantes em outras áreas de pesquisa.
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