ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO NOSSO RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DA NEUROCIÊNCIA NA AMÉRICA LATINA.

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Levando a neurociência ao México rural: Em conversa com Mónica López-Hidalgo

Por meio da educação e da tradução de termos científicos para línguas indígenas, o programa de extensão de López-Hidalgo, Neurociências Para Todos, oferece aos professores ferramentas para levar a neurociência às suas comunidades.

By Ashley Juavinett
1 November 2025 | 41 min watch

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Quando Mónica López-Hidalgo me convidou para almoçar durante uma visita ao campus da University of California em San Diego, em abril, eu não tinha ideia de que ela me levaria às lágrimas ao me contar sobre seu trabalho. López-Hidalgo, professora associada da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), é uma pesquisadora renomada na área de astrócitos, mas foi o trabalho que ela realiza por meio de seu programa de extensão, Neurociências Para Todos, que me inspirou a gravar e compartilhar esta conversa.

O programa Neurociências Para Todos tem como foco promover a educação em neurociência em algumas das comunidades mais remotas do México, como as cidades montanhosas de Itxtepec e Laguna de Guadalupe. Algumas das comunidades atendidas não têm eletricidade nem água encanada, e alunos de diferentes séries às vezes estudam todos juntos em uma única sala de aula. Talvez alguns desses alunos venham a ingressar na universidade estadual.

O programa teve início em 2019, quando López-Hidalgo estava em seu segundo ano como docente na UNAM. Dois alunos, Laura del Pilar-Martínez e Jonathan Gutiérrez, procuraram López-Hidalgo com uma ideia: queriam levar o que estavam aprendendo em sala de aula para as comunidades vizinhas. Ao mesmo tempo, López-Hidalgo começou a perceber que parte do trabalho que realizava em seu laboratório—mesmo que fosse apenas a análise de tecidos do sistema nervoso—era algo que a maioria dos alunos nunca teria condições de fazer em comunidades rurais. Logo nas primeiras etapas do planejamento, López-Hidalgo chamou outra professora da UNAM, Ericka de los Ríos-Arellano, para participar e os quatro lançaram o Neurociências Para Todos com o objetivo de, literalmente, tornar o sistema nervoso mais visível para as comunidades rurais do México.

Students in a rural Mexican community.
Ensino comunitário: Em comunidades rurais mexicanas, alunos de todas as séries muitas vezes estudam juntos em uma única sala de aula, aprendendo matemática, biologia e, agora, neurociência.

A cada dois anos, o Neurociências Para Todos traz cerca de 20 professores dessas regiões remotas para o campus da UNAM, no estado mexicano de Querétaro, onde passam três dias aprendendo sobre o cérebro e como ensinar aos seus alunos sobre o tema. O programa também organiza feiras de neurociência em comunidades rurais, onde tanto alunos quanto professores podem olhar por um microscópio pela primeira vez.

O foco na capacitação de professores, em vez de alunos, é intencional. O pai de López-Hidalgo era professor e incutiu nela uma forte crença no poder da educação e na importância de formar professores—como matemático, ele ensinava outras pessoas a ensinar matemática.

Os professores nas áreas rurais do México geralmente têm recursos limitados e são encarregados de dar várias aulas em diversas disciplinas, da matemática à biologia. O primeiro desafio do Neurociências Para Todos é familiarizar esses professores com a neurociência, começando por dar a eles a oportunidade de observar o mundo celular dentro de cebolas, insetos e tecido cerebral. “Tentamos encantá-los para que sintam toda a energia necessária para voltar e encantar as crianças”, diz López-Hidalgo.

Além de compartilhar conhecimento, o Neurociências Para Todos fornece aos professores uma mochila que contém um laboratório portátil completo, que eles podem levar para suas comunidades. Grande parte dessas atividades práticas se concentra em como usar o equipamento e aplicar os planos de aula com os alunos. O laboratório portátil inclui microscópios duráveis e de baixo custo, construídos pela equipe do Neurociências Para Todos, que são adaptados dos kits “RoachScope” da Backyard Brains.

A equipe enfrentou alguns desafios surpreendentes ao longo do caminho. Em várias das comunidades atendidas pelo Neurociências Para Todos, não se fala apenas espanhol: também são faladas línguas indígenas, como o maia ou hñähñu. Para lidar com isso, López-Hidalgo está colaborando com pesquisadores da área de linguística da UNAM para traduzir seus planos de aula para essas línguas indígenas, o que muitas vezes significa criar novas palavras para termos como microscópio, cérebro e hipocampo. López-Hidalgo diz que considera importante que os alunos tenham contato com a ciência em sua própria língua: “Para tornar [essa educação científica] acessível a todos, precisamos ir até eles. Não precisamos ensiná-los inglês para que venham até nós.”

Handwritten neuroscience terms translated from Spanish to the Mexican Indigenous language of Hñähñu.
Tradução ao pé da letra: Luis Miguel Pedraza-Mata, colaborador do Neurociência Para Todos, e seu tio Severino Sánchez-Cantero traduziram termos de neurociência do espanhol para a língua indígena mexicana Hñähñu. SNC: sistema nervoso central. SNP: sistema nervoso periférico.

Nos seis anos desde o seu início, o Neurociências Para Todos já capacitou 66 professores em 20 estados mexicanos. A cada ano, o programa recebe mais inscrições do que consegue atender. López-Hidalgo e seu grupo receberam apoio financeiro da UNAM, do governo mexicano e da International Brain Research Organization, mas os recursos são limitados, diz ela.

Apesar dos custos e desafios, López-Hidalgo acredita que trazer os professores à UNAM para aprender essas habilidades presencialmente é essencial. Os professores do programa saem inspirados para levar esse trabalho para suas salas de aula. “Todos nós temos um ou dois professores em nossas vidas que causaram um impacto”, diz López-Hidalgo. “Um professor que nos mostrou algo que, de repente, mudou nosso mundo, mudou nossas vidas.” Os professores capacitados pelo programa alcançam milhares de alunos a cada ano e compartilham seus conhecimentos e equipamentos com outras escolas em comunidades vizinhas, às vezes caminhando de montanha em montanha com seus laboratórios portáteis a tiracolo.

O Neurociências Para Todos está provando que o ensino da neurociência pode prosperar mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Assista à nossa conversa ou leia a transcrição em inglês.

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