Ilustração de um cientista diante de uma paisagem fragmentada.
Visão mais ampla: A definição ampliada de sub-representação da ALBA Network leva em consideração as barreiras documentadas à participação científica—incluindo as desvantagens enfrentadas por profissionais LGBTQIA+, restrições de visto e mobilidade e a carga invisível dos cuidados familiares.
Ilustração de Daniel Barreto
Add us as a Preferred Source on Google

Redefinindo a sub-representação na neurociência mundial

Mudar o foco das iniciativas de equidade das categorias identitárias para as barreiras estruturais pode revelar desafios negligenciados e aumentar o apoio e a participação em todo o mundo.

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

Read this article in English.

Lea este artículo en español.

As definições de sub-representação na neurociência costumam se concentrar em um conjunto conhecido de categorias demográficas: gênero, raça e etnia, deficiência e origem socioeconômica. Essas classificações sustentam a maioria das iniciativas de equidade e têm contribuído para ampliar a participação. Essas categorias, por mais padronizadas que sejam, focam em quem as pessoas são—e não nos sistemas que dificultam seu progresso. Essa distinção, entre identidade e infraestrutura, tem consequências significativas para quem entra nas estatísticas, quem recebe apoio e quem continua sendo deixado para trás.

Por exemplo, considere um pesquisador apresentando seu trabalho em uma segunda língua, ou um aluno de pós-graduação que é da primeira geração da família a ingressar na universidade, sem conhecimento prévio de como funcionam as carreiras acadêmicas e sem uma rede familiar capaz de absorver as pressões financeiras ao longo do caminho. Ou imagine um cientista que passa meses enfrentando o processo de obtenção de visto apenas para participar de uma conferência para a qual foi convidado. Esses pesquisadores não são exceções, mas não são tão fáceis de identificar com categorias de sub-representação que se baseiam exclusivamente em dados demográficos.

Historicamente, nossa área tem utilizado definições de sub-representação baseadas em categorias demográficas extraídas de legislações nacionais de igualdade e de dados do censo. Algumas formas de sub-representação são exclusivamente regionais, como a identidade de casta na Índia ou a condição de indígena na Nova Zelândia, por exemplo. Mas muitas iniciativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) destinadas a enfrentar esses desafios ignoram as barreiras enfrentadas por pessoas com identidades marginalizadas que se sobrepõem. Além disso, indicadores comuns, como as classificações de renda do Banco Mundial ou o “Sul Global”, podem ser profundamente enganosos—alguns países de alta renda investem menos em pesquisa em proporção ao seu PIB do que outros de baixa renda, e choques políticos podem colapsar a capacidade de pesquisa de um país mais rapidamente do que qualquer conjunto de dados é capaz de medir.

Como membros da ALBA Network—uma comunidade global comprometida com a promoção da DEI nas ciências do cérebro—, examinamos essas lacunas de perto. Para enfrentar essas lacunas, defendemos que a área precisa de uma abordagem mais holística para definir a sub-representação na neurociência global.

Propomos uma definição mais ampla que incorpore barreiras bem documentadas à participação científica—incluindo as desvantagens cumulativas enfrentadas por profissionais LGBTQIA+; restrições de visto e mobilidade que limitam a colaboração internacional; a carga invisível do cuidado de familiares que recai desproporcionalmente sobre as mulheres; deslocamento forçado; ser a primeira pessoa da família a ingressar na universidade; a fluência em inglês como língua não nativa; e atuar em países com infraestrutura de pesquisa cronicamente subfinanciada.

O

que acontece quando se aplica essa definição na prática? Desde 2024, temos utilizado essa definição na concessão dos prêmios da ALBA, pedindo aos candidatos que indiquem quais barreiras se aplicam à sua situação e que contextualizem suas realizações à luz dessas circunstâncias.

Essa mudança revelou novas informações sobre o perfil dos candidatos que poderiam ter sido completamente ignoradas pelas definições padrão. Ao longo dos três ciclos da premiação, as barreiras selecionadas com maior frequência foram: ser mulher, ser da primeira geração da família a frequentar a universidade, não ter o inglês como língua materna ou ter origem socioeconômica mais baixa. Titulares de passaportes com restrições de viagem apareceram em 24% das inscrições para nossos auxílios de viagem nos três ciclos—um número notavelmente mais alto do que entre as indicações para conferências. A representação de pesquisadores que trabalham em países com investimento cronicamente baixo em pesquisa e desenvolvimento aumentou de 35% em 2024 para 47% nos ciclos seguintes, desafiando a suposição de que a excelência em pesquisa só existe em ambientes com recursos abundantes. E pesquisadores deslocados, que estão enfrentando a migração forçada devido a conflitos ou instabilidade política, apareceram em níveis baixos, mas não nulos, ao longo de todo o período.

Talvez as mudanças mais instrutivas do ponto de vista metodológico tenham vindo dos refinamentos introduzidos entre os ciclos. Em 2024, agrupamos candidatas mulheres e LGBTQIA+ em uma única categoria—uma das mais frequentemente selecionadas. Quando desagregada a partir de 2025, a identificação LGBTQIA+ caiu drasticamente em todas as categorias de premiação, indicando que a agregação anterior havia ocultado as diferenças dentro da categoria combinada.

Nossa definição de sub-representação foi concebida para ser globalmente inclusiva, mas isso acarreta o risco de perder a precisão necessária para direcionar recursos para onde eles são mais necessários. Há também um problema mais sutil: muitos pesquisadores não se reconhecem como sub-representados, mesmo quando enfrentam desvantagens comprovadas—particularmente as mulheres, que, apesar das barreiras estruturais bem conhecidas, muitas vezes não se identificam com esse rótulo.

O estigma cultural e as preocupações com a privacidade inibem ainda mais a autodeclaração entre neurocientistas LGBTQIA+, o que significa que mesmo formulários bem elaborados podem subestimar esse número. A categoria de “falantes não nativos de inglês” ilustra uma complexidade semelhante. Para pesquisadores latino-americanos, ela representa uma barreira concreta—produzir ciência em uma língua que não é a sua; em regiões onde o inglês foi imposto pelo colonialismo, no entanto, os pesquisadores podem ser fluentes, mas enfrentam preconceito em relação ao sotaque.

Abordar essas limitações requer não apenas um aprimoramento metodológico, mas uma mudança na forma como nossa área avalia as realizações juntamente com a elegibilidade. Algumas iniciativas estão indo na direção certa. A política “Relative to Opportunity” do NHMRC australiano instrui explicitamente os revisores a interpretar a produtividade em pesquisa considerando interrupções na carreira e restrições estruturais. O Prêmio ALBA-Roche de Excelência em Pesquisa em Neurociência aplica o mesmo princípio, avaliando as realizações científicas dos indicados em relação às suas circunstâncias. Da mesma forma, o Programa de Bolsistas da BNA utiliza critérios amplos de elegibilidade que vão além dos indicadores acadêmicos convencionais, sendo mais um exemplo de uma abordagem mais contextualizada para a elegibilidade em programas de DEI.  

O contexto é fundamental, e alguma tensão entre estruturas globais e realidades locais é inevitável. Mas essa tensão é produtiva: uma perspectiva global compartilhada revela desafios além das fronteiras, enquanto as perspectivas locais mantêm as respostas fundamentadas e realistas. A estrutura da ALBA não é prescritiva. Nossa recomendação para outras organizações não é que adotem os parâmetros da ALBA de forma integral, mas que tratem a sub-representação em si como uma questão empírica—cuja resposta deve ser revisada iterativamente, e não fixada antecipadamente por legislação ou categorias censitárias. A neurociência perde talentos nas fronteiras impostas pelo passaporte, pelo idioma, pela geografia e pelas circunstâncias. O primeiro passo para lidar com essa perda é decidir medi-la. Se a área deseja ampliar a participação globalmente, deve medir não apenas quem são os pesquisadores e o que eles produzem, mas também o que eles precisam superar.

Sobre a Alba Network: A ALBA Network é uma divisão da FENS e conta com o apoio de seus parceiros fundadores: FENS, IBRO e SfN.

Sign up for our weekly newsletter.

Catch up on what you missed from our recent coverage, and get breaking news alerts.