ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO NOSSO RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DA NEUROCIÊNCIA NA AMÉRICA LATINA.

Stages of neurodegeneration: Neurofibrillary tangles at different stages of neurodegeneration are labeled with phosphorylated tau antibodies (green and blue).
Estágios da neurodegeneração: Emaranhados neurofibrilares em diferentes estágios da neurodegeneração são marcados com anticorpos contra a proteína tau fosforilada (verde e azul). (Publicado no Journal of Alzheimer’s Disease, 2026.)
Courtesy of José Luna-Muñoz
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Reimaginando o banco de cérebros do México

Desde que o pesquisador da doença de Alzheimer José Luna-Muñoz assumiu a direção da instituição—a mais antiga da América Latina—em 2011, ele vem adquirindo novos tipos de tecido e trabalhando para ampliar o recrutamento de doadores nas áreas rurais

Helen Mendes Lima traduziu este artigo.

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Durante anos, o primeiro banco de cérebros da América Latina—fundado na Cidade do México em 1994—armazenava apenas fragmentos de cérebros. Mas, desde que o pesquisador da doença de Alzheimer José Luna-Muñoz assumiu a coleção em 2011, ele a transformou no Biobanco Nacional de Demência do México, que hoje conta com 17 cérebros inteiros de pessoas com doença de Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas, além de outros órgãos e tecidos.

Os planos futuros incluem expandir ainda mais a coleção por meio da obtenção de amostras de sangue, saliva e urina de doadores enquanto ainda estão vivos, bem como de líquido cefalorraquidiano quando coletado por motivos clínicos, afirma Luna-Muñoz, diretor do biobanco da Universidad Politécnica de Pachuca. Ao mesmo tempo, ele está trabalhando para ampliar a conscientização sobre a doação de cérebros para além das maiores cidades do México, por meio de ações comunitárias e iniciativas educacionais, com o objetivo de alcançar comunidades rurais em todo o país. 

Luna-Muñoz conversou com The Transmitter sobre por que cada país—especialmente os da América Latina, onde atualmente apenas cinco países possuem um banco de cérebros—precisa de seu próprio biobanco, os desafios de construir e manter um, e dicas para quem deseja estabelecer iniciativas semelhantes.

Esta entrevista foi conduzida em espanhol e traduzida. Ela foi editada para maior concisão e clareza.

The Transmitter: Qual é a importância para o México ter seu próprio biobanco?

José Luna-Muñoz: Os primeiros bancos de cérebros foram criados nos Estados Unidos e na Europa; por isso, as populações que vivem nessas regiões foram as mais amplamente estudadas. Mas a América Latina possui grandes comunidades indígenas e populações mestiças, além de dietas e estilos de vida distintos. Assim, cada país deveria ter seu próprio biobanco para identificar seus próprios fatores de risco para doenças como a doença de Alzheimer.

Por exemplo, o banco de cérebros do Grupo de Neurociências de Antioquia, na Colômbia, tornou-se um centro de referência mundial para o estudo da doença de Alzheimer de origem genética e início precoce. Ele permitiu aos pesquisadores estudar tecidos *post-mortem* de pessoas que, em vida, participaram de estudos longitudinais. A análise de cérebros doados e de outras amostras coletadas por meio desses estudos levou a descobertas inéditas sobre mutações hereditárias associadas à doença de Alzheimer.

Um banco de cérebros nacional também oferece aos pesquisadores locais e aos jovens neurocientistas acesso a tecido humano sem a necessidade de viajar para o exterior, estimulando o interesse e a paixão pela área. 

Se não gerarmos esses dados por conta própria, teremos que recorrer a modelos animais ou a resultados de outras populações, mas isso não pode substituir o estudo do tecido cerebral humano proveniente de nossas próprias comunidades. 

Brain of a person with Alzheimer’s diease.
Alzheimer’s lesions.
Neurofibrillary tangles in the brain of a person with Alzheimer’s disease.
Brain donations allow researchers to study the tissue loss, enlarged ventricles and hippocampal atrophy associated with Alzheimer’s disease. (Published in the Journal of Alzheimer’s Disease, 2026.)
Neuron from a person with Alzheimer’s disease stained in red.
Silver-stained brain sample from a person with Alzheimer’s disease.
Museum exhibit includes brain in a bowl of water.
Preservando a patologia: Os sulcos alargados visíveis neste cérebro de uma pessoa com doença de Alzheimer refletem a perda progressiva de tecido cerebral que os pesquisadores estudam por meio do biobanco.
José Luna-Muñoz

TT: Como o banco de cérebros tem contribuído para a pesquisa em neurociência?

JL-M: Um de nossos primeiros estudos comparou o desempenho de dois corantes em tecido cerebral fixado e fresco: o vermelho de tiazina e a tioflavina, os quais se ligam às estruturas de folha beta encontradas na proteína tau e no beta-amiloide em tecido fixado. Descobrimos que, ao contrário da tioflavina, o vermelho de tiazina também cora essas lesões em tecido fresco. Isso é importante porque, em alguns países, crenças religiosas ou culturais impedem a doação do cérebro inteiro. Nesses casos, uma pequena biópsia obtida por meio de uma pequena abertura no crânio poderia ser suficiente para esse tipo de coloração.

Outra contribuição foi nosso trabalho com a proteína tau. Nossa pesquisa indica que uma forma truncada específica da tau é a principal espécie tóxica que inicia a agregação da tau na doença de Alzheimer, recrutando a tau normal para agregados patológicos. Propomos que, em vez de ser inerentemente tóxica, a fosforilação da tau seja uma resposta celular protetora que mascara esse fragmento tóxico, retardando a apoptose neuronal e preservando a função neuronal por um período mais longo.

TT: Quais têm sido os principais desafios para desenvolver e manter um biobanco de cérebros?

JL-M: Um grande desafio tem sido o financiamento; às vezes, nós mesmos temos que cobrir despesas urgentes. E ainda nos faltam equipamentos essenciais—por exemplo, um freezer de ultrabaixa temperatura para armazenar tecido cerebral congelado para estudos bioquímicos e genéticos. 

Outro obstáculo é a falta de uma política pública clara no México que incentive a doação de cérebros para pesquisa. Como resultado, as doações são muito limitadas e geralmente vêm de famílias que buscam um diagnóstico definitivo para um parente com demência.

Atitudes culturais e tabus são outro desafio. Por exemplo, algumas pessoas acreditam que um ente querido deve ser enterrado com todos os seus órgãos intactos como sinal de respeito. Outras acreditam que a doação de órgãos pode afetar o descanso espiritual do falecido ou interferir nas práticas funerárias tradicionais. Muitas famílias também questionam a validade do diagnóstico de morte cerebral, o que as torna relutantes em autorizar a doação de órgãos. Outras temem que se registrar como doador de órgãos signifique que os médicos não farão todo o possível para salvar sua vida.

Por fim, a conscientização fora das grandes cidades também tem sido um desafio. Nosso objetivo agora é alcançar comunidades rurais por meio do estabelecimento de parcerias com hospitais rurais e clínicas comunitárias e do desenvolvimento de logística com empresas especializadas para garantir que as amostras doadas cheguem ao biobanco em condições ideais.

Também estamos desenvolvendo um museu itinerante onde as pessoas podem observar, por meio de um microscópio, as lesões microscópicas associadas à doença de Alzheimer, além de fotografias de cérebros afetados pela doença.

TT: Que recomendações você daria a uma equipe de pesquisa interessada em criar um banco de cérebros?

JL-M: O primeiro requisito é uma equipe de pesquisa comprometida e com experiência no manuseio de tecido cerebral, incluindo conhecimento especializado em doenças altamente infecciosas, como as doenças priônicas. Em seguida, a própria instituição deve compreender a importância de criar um banco de cérebros. O terceiro passo é conscientizar a comunidade para que as pessoas entendam o valor da doação de cérebros. Os recursos virão gradualmente por meio de projetos de pesquisa e colaborações, mas tudo deve se basear em sólidos princípios éticos e no respeito aos doadores e suas famílias. Por fim, os pesquisadores precisam de uma visão científica clara e devem definir com cuidado as questões que o banco de cérebros deve responder. 

Aplicamos esses mesmos princípios além do México, oferecendo orientação a países como o Peru e o Uruguai, que estão interessados em criar seus próprios bancos de cérebros. Temos uma parceria especial com a República Dominicana. Em 2019, colegas de lá nos pediram ajuda para criar seu próprio banco de cérebros. Viajei para a República Dominicana para ajudar a lançar a iniciativa, conscientizando o público por meio de entrevistas no rádio, na televisão e nos jornais. Também criamos um museu itinerante no país, semelhante ao que temos no México. Hoje, esse banco de cérebros está em pleno funcionamento e faz parte de uma rede crescente de bancos de cérebros em toda a América Latina.

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